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perspectivas

São perspectivas diferentes de olhar a mesma rua que num dia se mostra repleta de carros que te destroem com o seu ruído insuportável, gente de olhar incerto, lojas arcaicas com as suas inúteis baixas de preços, e no outro te ilumina os olhos com os seus alvos e imponentes edifícios que suportam um cintilante céu índigo, cercados por todos os aromas que uma cidade por vezes ainda consegue guardar. São modos distintos de reagir a um sorriso escondido que entre dois piscar de olhos passa de banal a épico, que te deixa mais cabisbaixo por saberes que não lhe poderás nunca vir a tocar ou extremamente satisfeito por saberes que há quem mereça ser verdadeiramente feliz. São ideias divergentes expostas pela mesma pessoa, sobre o mesmo tema, mas em circunstancias diferentes e que se tornam decisivas para uma alteração completa de raciocínio, tanto para melhor como para pior. São emoções opostas que a mesma música te transmite, ora depressão refinada destruidora de todo a alegria inata em ti, ora exultações explosivas que descarregam no teu sistema adrenalina em quantidades nocivas ao infortúnio. São formas diversas de receber a alvorada, de querer mudar a vida ou de desejar afincadamente manter tudo como está. São perspectivas diferentes de olhar a mesma rua, essa que hoje me delicia com os seus alvos e imponentes edifícios que suportam um cintilante céu índigo, cercados por todos os aromas que uma cidade por vezes ainda consegue guardar.

"Mas a operação de escrever implica a de ler como seu correlativo dialético, e estes dois actos conexos precisam de dois agentes distintos. É o esforço conjugado do autor e do leitor que fará surgir o objecto concreto e imaginário que é a obra do espírito."

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Hábitos Breves

"Gosto dos hábitos que não duram; são de um valor inapreciável se quisermos aprender a conhecer muitas coisas, muitos estados, sondar toda a suavidade, aprofundar a amargura. Tenho uma natureza que é feita de breves hábitos, mesmo nas necessidades de saúde física, e, de uma maneira geral, tão longe quanto posso ver nela, de alto a baixo dos seus apetites. Imagino sempre comigo que esta ou aquela coisa se vai satisfazer duradouramente - porque o próprio hábito breve acredita na eternidade, nesta fé da paixão; imagino que sou invejável por ter descoberto tal objecto: devoro-o de manhã à noite, e ele espalha em mim uma satisfação, cujas delícias me penetram até à medula dos ossos, não posso desejar mais nada sem comparar, desprezar ou odiar. E depois um belo dia, aí está: o hábito acabou o seu tempo; o objecto querido deixa-me então, não sob o efeito do meu fastio, mas em paz, saciado de mim e eu dele, como se ambos nos devêssemos gratidão e estendemo-nos a mão para nos despedirmos. E já um novo me aguarda, mas aguarda no limiar da minha porta com a minha fé - a indestrutível louca... e sábia! - em que este novo objecto será o bom, o verdadeiro, o último... Assim acontece com tudo, alimentos, pensamentos, pessoas, cidades, poemas, músicas, doutrinas, ordens do dia, maneiras de viver." Friedrich Nietzsche, in 'A Gaia Ciência'