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luto

Apesar de Deus estar morto e enterrado, já ninguém se importa com isso – isto, se é que alguém alguma vez se importou. O mundo vive num rodopio infernal que se mistura com a vontade de uns em criar obra, - pouco motivados com a obra em si mas com tudo o que ela lhes poderá trazer - de outros em deixar legado, - tentando fazer dos seus filhos os filhos que eles nunca foram - daqueles em impressionar uns e outros, - porque não nos contentamos em ser simplesmente nós; o nós, tem de ser significativamente melhor que o eles - deles em cobiçar o que elas fazem, - porque se elas fazem, elas são melhores que eles, o que significa que eles também têm de fazer - delas em falar do que eles fizeram , - porque se eles fizeram, é preciso falar sobre isso até se concluir que elas fariam o mesmo, mas melhor.
No entanto, não é que vivendo no meio de todo este turbilhão de afazeres, dolorosos pela falta de perspectiva, ninguém pergunta porque está dentro dele? Se antes tinham ainda um Deus a seguir, um éden a aspirar e o abismo para evitar, hoje em dia apenas o trabalho de todos, a glória de uns e o infortúnio de outros é que conta para a glória deste nosso mundo. De um anho desamparado pertencente a um rebanho ignorante mas satisfeito que seguia um único pastor, decidimos ser cordeiros sem rebanho e sem pastor, mas sempre cordeiros, sempre animais. Deus está morto. Eles não se importam com isso, os animais. Importo-me eu. E se não me posso apoiar no Morto, a que me devo agarrar então?

"Mas a operação de escrever implica a de ler como seu correlativo dialético, e estes dois actos conexos precisam de dois agentes distintos. É o esforço conjugado do autor e do leitor que fará surgir o objecto concreto e imaginário que é a obra do espírito."

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Hábitos Breves

"Gosto dos hábitos que não duram; são de um valor inapreciável se quisermos aprender a conhecer muitas coisas, muitos estados, sondar toda a suavidade, aprofundar a amargura. Tenho uma natureza que é feita de breves hábitos, mesmo nas necessidades de saúde física, e, de uma maneira geral, tão longe quanto posso ver nela, de alto a baixo dos seus apetites. Imagino sempre comigo que esta ou aquela coisa se vai satisfazer duradouramente - porque o próprio hábito breve acredita na eternidade, nesta fé da paixão; imagino que sou invejável por ter descoberto tal objecto: devoro-o de manhã à noite, e ele espalha em mim uma satisfação, cujas delícias me penetram até à medula dos ossos, não posso desejar mais nada sem comparar, desprezar ou odiar. E depois um belo dia, aí está: o hábito acabou o seu tempo; o objecto querido deixa-me então, não sob o efeito do meu fastio, mas em paz, saciado de mim e eu dele, como se ambos nos devêssemos gratidão e estendemo-nos a mão para nos despedirmos. E já um novo me aguarda, mas aguarda no limiar da minha porta com a minha fé - a indestrutível louca... e sábia! - em que este novo objecto será o bom, o verdadeiro, o último... Assim acontece com tudo, alimentos, pensamentos, pessoas, cidades, poemas, músicas, doutrinas, ordens do dia, maneiras de viver." Friedrich Nietzsche, in 'A Gaia Ciência'