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o espelho

Uma e dezanove da manhã. Dentro do teu quarto o silêncio supera a escuridão, sinal de que deverias estar a embarcar no mais profundo sono. Inversamente, lá fora o temporal não se mostra disponível para cessar, ouvindo-se gritos trazidos pelo vento e ritmados por uma batida irregular da chuva nas paredes do teu quarto. Passaram aproximadamente quinze horas desde que te levantaste e, no entanto, nenhuma delas fez para ti qualquer diferença. Muitas coisas deverias ter feito mas, chegando ao fim do dia, tudo permanece na mesma, como se o tempo tivesse aportado numa qualquer ilha no meio do Atlântico, esperando que tu estejas pronto para prosseguir o teu trajecto. A única diferença em relação ao dia de ontem é a folha nova no calendário e o agravamento do peso dantesco que carregas dentro da tua cabeça e do sufocante aperto a que está submetido o teu coração. Não tens determinação suficiente para te mexer. Estás apático, irresoluto. Sentes-te obtuso, ignorante, impaciente e debilitado. Hoje não gostas de ti. Por diversas vezes te olhaste no espelho. Para a maior parte das pessoas, fitar a pessoa no espelho faz parte de um ritual de agravamento da auto-estima, de assimilação da grandeza própria. Para ti, é uma tentativa de te encontrares, de tentares escapar do fundo buraco em que foste cair. Por diversas vezes te olhaste no espelho, mas em nenhuma delas encontraste o que querias. Com quinze horas de temporal decorridas, no espelho não consegues encontrar beleza ou deformidade. Apenas consegues fitar uns tristes olhos verdes, uns secos, carnudos e sozinhos lábios, uma desconfortável barba com alguns dias de vida e um desleixado cabelo que precisa seriamente de ver o chão de uma barbearia. Para quem te conhece, essas são imagens associadas a alguém que têm de ver a rir, alguém que não tem problemas. Para quem te conhece, a imagem que vês no espelho é mais uma das imagens que lhes preenche a pintura de cada dia. Para essas pessoas, uma vez adereço, a figura que tu vês no espelho pode ser bonita ou horrível, desconfortável ou tranquilizadora. Mas tu não a vês dessa perspectiva, pois hoje apenas consegues atentar no modo como ele se apresenta reflectida e desamparada à tua frente. Tentas ver para além do reflexo mas não consegues. Vais dormir sentindo que há muito que podes fazer por aquela terna figura que se mostra no espelho. Respiras fundo e tentas não pensar quão idêntico ao dia de hoje o amanhã será.

Vais adormecer com o mesmo peso dentro da cabeça e com o mesmo sufoco a mastigar o teu peito. Com alguma sorte, acordas diferente. A chuva pode ter caído durante todo o dia, mas quem sabe de onde podem aparecer os abrigos mais improváveis. Tudo o que tens a fazer é encontrá-los.

"Mas a operação de escrever implica a de ler como seu correlativo dialético, e estes dois actos conexos precisam de dois agentes distintos. É o esforço conjugado do autor e do leitor que fará surgir o objecto concreto e imaginário que é a obra do espírito."

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  • Blogger Pedro Trismegistos escreveu:
    19:52  

    "A chuva pode ter caído durante todo o dia, mas quem sabe de onde podem aparecer os abrigos mais improváveis. Tudo o que tens a fazer é encontrá-los."
    O recanto para a harmonia dos ventos pessimistas ligado a atmosfera do netativismo-natural...
    Mas,geralmente e sorrateiramente,queremos encontrar os abismos mais improvaveis,esses revelam a grandeza da pura verdade...
    Gostei de suas escritas,estou te adicionando em meu Blog.Tudo bem?
    Emfim... topo

Hábitos Breves

"Gosto dos hábitos que não duram; são de um valor inapreciável se quisermos aprender a conhecer muitas coisas, muitos estados, sondar toda a suavidade, aprofundar a amargura. Tenho uma natureza que é feita de breves hábitos, mesmo nas necessidades de saúde física, e, de uma maneira geral, tão longe quanto posso ver nela, de alto a baixo dos seus apetites. Imagino sempre comigo que esta ou aquela coisa se vai satisfazer duradouramente - porque o próprio hábito breve acredita na eternidade, nesta fé da paixão; imagino que sou invejável por ter descoberto tal objecto: devoro-o de manhã à noite, e ele espalha em mim uma satisfação, cujas delícias me penetram até à medula dos ossos, não posso desejar mais nada sem comparar, desprezar ou odiar. E depois um belo dia, aí está: o hábito acabou o seu tempo; o objecto querido deixa-me então, não sob o efeito do meu fastio, mas em paz, saciado de mim e eu dele, como se ambos nos devêssemos gratidão e estendemo-nos a mão para nos despedirmos. E já um novo me aguarda, mas aguarda no limiar da minha porta com a minha fé - a indestrutível louca... e sábia! - em que este novo objecto será o bom, o verdadeiro, o último... Assim acontece com tudo, alimentos, pensamentos, pessoas, cidades, poemas, músicas, doutrinas, ordens do dia, maneiras de viver." Friedrich Nietzsche, in 'A Gaia Ciência'