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casablanca

Foram noventa e oito minutos serenamente intensos, feitos dos segredos e emoções cruas de um mundo retratado com as sombras únicas do preto e branco. Não foi por isso difícil deixar-me contagiar pelo simpático Sam e as suas interpretações de As Time Goes By ou Knock on Woods, ou pelo sempre irónico e por vezes cáustico humor utilizado durante toda a película. Tão pouco me custou ficar aterrado pelo duelo apaixonante entre a monótona e agressiva Die Wacht am Rhein e a épica e bela La Marseillaise. Atónito, imaginei-me por entre os figurantes que desfilavam pelo requinte da vida que, mesmo em Marrocos, se fazia sentir na década de quarenta. Mas claro, o que mais irei para sempre admirar e recordar será o indestrutível amor entre o carácter imperturbável de Rick Blaine e a divindade nórdica de Ilsa Lund que, com a facilidade dos que sabem, me levaram a sentir como se também eu fosse parte daquele afecto infinito.

Esta noite decidi abdicar das páginas de Lobo Antunes, dando-lhes algum repouso merecido, para me entregar sem amarras a um filme que, sem perdão, não fazia ainda parte dos meus pequeninos vinte e um anos de viver. Preparei o bule com um daqueles chás celestiais que comprei já lá vão dois anos em Londres mas que mantém inatacável o seu aroma enternecedor, desliguei as luzes do quarto e refastelei-me, como tão bem o sei fazer, enquanto o genérico de Casablanca se desenhava na minha retina. Sabemos que um filme nos marcou quando acabamos de o ver e não conseguimos de imediato regressar ao nosso corpo e às nossas certezas absolutas. No fim de Casablanca, também eu fiquei a sonhar com a improbabilidade de um romance construído na Paris do século passado, onde nem mesmo uma ocupação militar poderia retirar a força àquilo que a maioria procura e poucos ou nenhuns conseguem alguma vez atingir por completo. E não precisava de durar eternidades. Para ser inesquecível, noventa e oito minutos com certeza iriam chegar.

Here’s looking at you, kid.

escrito por Pedro a 30 abril 2007 //

exaustão

Na véspera da mais serena madrugada da sua vida, Teresa entrou naquela velha sala do terceiro piso com as passadas vagarosas típicas da criatura esgotada. Músculos pendentes e apáticos, olhar escarlate fatigado, ruído fino e monótono dentro da cabeça, vestida num ilógico desacordo com as peças de cimo da gaveta. Contornou os típicos olhares de desdém e o burburinho desconexo daqueles que preferiram imaginar o que ela era em vez de lhe perguntar o que sentia, buscou com os olhos a impraticabilidade de um rosto amigo e deixou-se cair na sua cadeira de sempre, aquela de corpo frio, eterno e arrastado falar metálico, e permaneceu apartada à espera que mais uma aula de sexta-feira à noite começasse.
O Professor chegou pontual, tanto no seu atraso de vinte minutos como no seu sorriso encantador, exclusivo daqueles que amam aquilo que são, pousou cuidadosamente a sua pirâmide de folhas e esferográficas na mesa e deu início às duas horas seguintes da vida das doze pessoas que com Teresa partilhavam a sala. Por essa altura, Teresa olhou tristemente em seu redor, e exalou a seu última canção.

Naquela sala do terceiro piso, viste reunida toda a incapacidade para materializar o que querias ser. Os olhares oblíquos e os sorrisos falhados. As amizades por começar e o saber por aprender. O excesso de querer e a falta de poder. Foi certamente por isso que no dia seguinte vieste até mim, num andar próprio de quem já não caminha mas voa, paraste encostada aos limites de um vaidoso tabuleiro sob aquele rio de lágrimas sem fim, respiraste fundo e pediste-me desculpa enquanto partias numa queda que, a ti, para sempre pareceria infinita.

escrito por Pedro a 29 abril 2007 //

janela secreta

Um rectângulo azul pérola preenche metade do meu campo de visão. Bocejo involuntariamente enquanto os meus olhos se habituam à pouca luz que me cega. Sinto os ouvidos tapados e o pescoço dormente. Devo ter adormecido outra vez em cima das almofadas com a música ligada, pobre vizinho do primeiro centro. Levanto-me para trocar o Apologies To The Queen Mary dos Wolf Parade por algo mais de acordo com a minha cara ensonada. Tento encontrar o relógio e descodificar as horas. Cinco e quarenta da manhã. Merda, é cedo de mais. Sento-me à janela que tinha deixado aberta, atraído pelo calor da madrugada e o barulho dos pássaros que têm por hábito acordar junto ao meu quarto, e ai me deixo ficar, com um copo de leite na mão e a voz da Joanna Newsom a cantar só para mim lá dentro no quarto.

Encostado ao parapeito penso a quantos metros de altura estará o telhado da marquise do rés-do-chão, e o barulho que decerto faria se adormecesse neste preciso momento e caísse lá em baixo. É melhor manter-me acordado, não vá acordar alguém que ainda tem mais um par de horas para descansar. Apesar das caras sempre amigáveis dos meus vizinhos, aposto que eram bem capazes de perder duas semanas a descurar «o rapaz que noutro dia caiu na marquise da Dona Carmen e que não deixou ninguém dormir durante o resto da noite». Começa a chover. Podia jurar que o céu estava estrelado, estranho. Bem, seja como for continua calor, estou confortável aqui, mais vale aproveitar.

escrito por Pedro a 21 abril 2007 //

férias desportivas 2007

A conversa é sempre a mesma e já chateia. De cada vez que tenho de quebrar a rotina para ir de férias, canso-me da ideia e perco a vontade de ir onde quer que seja. No entanto, minuto e meio depois de a viagem ter começado já não quero outra coisa.

Sou um rapaz bastante parvo.

O comboio partia para Tavira com cerca de setecentas pessoas. Setecentas. Até dói a escrever. Quase tanto como doía andar pelo meio delas, divididas pelas nove carruagens para ver se alguma destas era melhor que a número quatro. Mito, nenhuma a batia. Nem mesmo a do senhor com o acordeão. A viagem foi, obviamente, bem regada, não fosse o povo do comboio todo gente saudável que se conserva bem com muito álcool nas guelras. Para além disso, havia muitos dias para queimar a bebida e tudo o resto. Para variar, à chegada a Tavira já tinha perdido a voz sabe Deus onde.

Feita a viagem, não foi muito difícil deixarmo-nos encantar por Pedras D’el Rei, pelo seu aldeamento praticamente todo para nós, pelas casinhas para gente pobre e para gente fina, pelas listas de recheio com talheres, chávenas, colchões e mesinhas de apoio a duzentos e cinquenta euros que não podiam ser roubadas, pelo supermercado da nutella, da fita-cola, da cerveja e da papa de bebé, pela piscina de três metros e meio, pelos atalhos, pelo alfa-pendular da Praia do Barril e pela bela da Praia e do mar.


De manhã éramos brindados com a Dona Fernanda que com muito mimo, para não nos acordar, perguntava se podia fazer o servicinho, éramos abençoados com um leitinho com mel de biberão para curar a garganta mal amanhada que tão bem sabia a mamar, com os roncos de alguém e com a bela da loiça por lavar. Foi a semana do arroz de marisco para trinta e cinco pessoas, dos iogurtes com frases bonitas como «Tens o meu carinho nas tuas mãos», das corridinhas para queimar o feijão, do meu pé torto mas belo, das fotografias com o Quim e com muitas conversas, nascimentos e falecidos, do chouriço às sete da manhã, da casa de banho sem luz e do Pélvis, o Polvo Elvis. Á noite era tempo de festa, ora do Azeiteiro – de palito na boca, camisa a condizer, calcinha arreganhada, meia branca e chinela -, ora a da noite Branca – transformada em noite da Toga à força da inspiração divina dada pelos lençóis que a Dona Fernanda trocava aquando do seu servicinho – ora a noite dos anos 70, sem espaço para dançar com roça-roça malicioso, tudo pelo espírito da paz e do amor.

Mas havia mais. Houve o Senhor Manuel que nos fez prometer que tratávamos bem das suas meninas – e elas lá arranjaram por certo alguém melhor que nós para as tratar -, houve a Ritinha das sardas, houve o Segurança Nelson que me deixava roubar flores e o Segurança Brasileiro que quase que nos mordia com suas presas por nós querermos levar chantilly – a bela da arma de arremesso – para a festa. Houve a Clara que fez anos e que pediu umas trinta vezes pela «Só um Beijo», a Joaninha que ia para a cama cedo e a Joaninha que me deixou ganhar no vólei, o Jonas do Yoga, o Lourenço Arrasa-Corações, a Inês que ganhou o torneio e a Ana da Mafita e a Mafita da Ana. Houve a Ronrom e o Daniel (ou seria Diogo ou David?) do ginásio com as amigas da Pum, o Curado que não se lembrava de mim, a Vania com Y que tão bem se mexia, e o Rui que queria dar beijinhos no Jonas do Yoga. Houve a Liliana que dava picas no dedo e os senhores que nos puxavam pela Banana. E houve muito mais gente, uns que o álcool lá destruiu e outros de que me vou lembrar quando acabar de escrever aqui o testamento.

Houve Gigi. De manhã comia cereais, leitinho e tinto, ao almoço comia chouriça e tinto, ao jantar comia marisco e tinto. Tanto tinto bebeu que ficou rosada nas pontas, o que não significa por isso que tenha sido mal tratada. Era o nosso rebento, tratada como uma rainha e sobreviveu bem viçosa durante os cinco dias de festa rija. Foram os dias em que a Gigi viu que não tinha Cástrol, em que aprendeu a nadar e a cantar músicas bonitas. Foram os dias em que o mundo conheceu a Gigi e ela se tornou a Deusa das Verduras. Longa vida à Gigi. Mas mais do que tudo, houve Popozudas, e só deu Popozudas. Se as Popozudas não ganharam foi porque não quiseram, porque não se sentiam bem a ter de voltar para o ano sem pagar quando todos os outros teriam de, possivelmente, vender o corpo para pagar os cento e vinte euros de inscrição. Tinhamos a Joaninha que marcou golo para Portugal, a Paulinha que tanto enrolava o cabelo pela voz do Lourenço, a Romi Romi e os taus que com tanto carinho eu lhe oferecia, a Rosa com o seu cheiro e o seu Pepino Assanhado, a Neide que tão bem lambeu o chantilly, a Aninhas que com tanta força me destruiu o coração, a Rita Rute e as suas calças floridas e a Rute Rita que, mesmo sem saber, me emprestou o cinto. Todas elas, bem tratadas pelos seus cavalheiros. Dani, Rui e Cláudio: fomos grandes.

Próxima paragem: Super Bock Super Rock. Sobe equipa!

escrito por Pedro a 17 abril 2007 //

Hábitos Breves

"Gosto dos hábitos que não duram; são de um valor inapreciável se quisermos aprender a conhecer muitas coisas, muitos estados, sondar toda a suavidade, aprofundar a amargura. Tenho uma natureza que é feita de breves hábitos, mesmo nas necessidades de saúde física, e, de uma maneira geral, tão longe quanto posso ver nela, de alto a baixo dos seus apetites. Imagino sempre comigo que esta ou aquela coisa se vai satisfazer duradouramente - porque o próprio hábito breve acredita na eternidade, nesta fé da paixão; imagino que sou invejável por ter descoberto tal objecto: devoro-o de manhã à noite, e ele espalha em mim uma satisfação, cujas delícias me penetram até à medula dos ossos, não posso desejar mais nada sem comparar, desprezar ou odiar. E depois um belo dia, aí está: o hábito acabou o seu tempo; o objecto querido deixa-me então, não sob o efeito do meu fastio, mas em paz, saciado de mim e eu dele, como se ambos nos devêssemos gratidão e estendemo-nos a mão para nos despedirmos. E já um novo me aguarda, mas aguarda no limiar da minha porta com a minha fé - a indestrutível louca... e sábia! - em que este novo objecto será o bom, o verdadeiro, o último... Assim acontece com tudo, alimentos, pensamentos, pessoas, cidades, poemas, músicas, doutrinas, ordens do dia, maneiras de viver." Friedrich Nietzsche, in 'A Gaia Ciência'