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metamorfoses

A dor é capaz de incapacitar todo o teu raciocínio, afastar qualquer vontade de acordar que pudesse alguma vez restar, premiar o desmazelo e a impertinência de um corpo oferecido às maravilhas da indolência. Ela pode arrastar dias da tua vida e torna-los em anos bem crescidos que tu jamais lembrarás de ter visto passar, consegue apagar traços de felicidades empíricas e semear dúvida em lugares eternamente inabaláveis. A dor que te consome tem em ti um porto seguro que não pensa deixar. Ela devora-te. E no entanto, é essa mesma dor que te transforma. A dor aguda que se apropria da tua exuberância leva à delicada mas inquietante dúvida, a dúvida ao problema que formulas para com ele conseguires ganhar algo de bom, o problema à reflexão, reflexão esta que te desgasta mais do que a própria dor que tanta agonia causava no início do parágrafo. E por último, é a reflexão que te faz alcançar um desígnio capaz de te fazer ver que a dor em si é ridícula e supérflua, que humano como és consegues pegar na tua aflição e transforma-la numa lição. É este desígnio que fará de ti uma pessoa melhor. A dor é útil. Só precisas de suportar a bofetada com um sorriso maior do que aquele presente na cara de quem ta dá, mesmo que esse alguém sejas tu.

"Mas a operação de escrever implica a de ler como seu correlativo dialético, e estes dois actos conexos precisam de dois agentes distintos. É o esforço conjugado do autor e do leitor que fará surgir o objecto concreto e imaginário que é a obra do espírito."

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Hábitos Breves

"Gosto dos hábitos que não duram; são de um valor inapreciável se quisermos aprender a conhecer muitas coisas, muitos estados, sondar toda a suavidade, aprofundar a amargura. Tenho uma natureza que é feita de breves hábitos, mesmo nas necessidades de saúde física, e, de uma maneira geral, tão longe quanto posso ver nela, de alto a baixo dos seus apetites. Imagino sempre comigo que esta ou aquela coisa se vai satisfazer duradouramente - porque o próprio hábito breve acredita na eternidade, nesta fé da paixão; imagino que sou invejável por ter descoberto tal objecto: devoro-o de manhã à noite, e ele espalha em mim uma satisfação, cujas delícias me penetram até à medula dos ossos, não posso desejar mais nada sem comparar, desprezar ou odiar. E depois um belo dia, aí está: o hábito acabou o seu tempo; o objecto querido deixa-me então, não sob o efeito do meu fastio, mas em paz, saciado de mim e eu dele, como se ambos nos devêssemos gratidão e estendemo-nos a mão para nos despedirmos. E já um novo me aguarda, mas aguarda no limiar da minha porta com a minha fé - a indestrutível louca... e sábia! - em que este novo objecto será o bom, o verdadeiro, o último... Assim acontece com tudo, alimentos, pensamentos, pessoas, cidades, poemas, músicas, doutrinas, ordens do dia, maneiras de viver." Friedrich Nietzsche, in 'A Gaia Ciência'