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sobrou o nada

Maldito sejas.

Levaste-nos a vontade de construir uma família, de viver para os nossos filhos e de nos fazer sentir bem perante todos aqueles que nos rodeiam. Levaste-nos a incerteza, o pudor e seu rubor, a paixão, o romance. Trinchaste todo o amor que se tinha mantido inatacável, sem nunca se ter deixado decifrar por todos aqueles que sempre o sentiram sem ver ilustrada a sua causa. Acabaste com o olhar crítico perante o mundo, com a contemplação atenta e emocionada de toda a complexidade com que o acaso soube edificar toda a natureza. Foi-se o cheiro de todas as noites frias, o sabor de uma chuva que agora nos cai seca no regaço e o som de uma multidão deslumbrada que hoje jaz apática num qualquer canto fortuito, todo ele repleto de um negrume difícil de comportar. Tiraste-nos a vontade de reflectir sobre aquilo que queremos, a aptidão para conceber tudo o que imaginamos, os horizontes que se abriam para uma nova jornada cheia de força e inquietude. Destruíste o amor-próprio, o ego, o super-ego e o alter-ego e, uma vez desfeitos, espalhaste as suas cinzas pelo mundo, não com o intuito de as ver crescer numa folha de laranjeira mas sim para que todos o pudessem calcar e desprezar. Estragaste a vivacidade dos mais novos e a felicidade moribunda daqueles para quem o tempo já há muito se tornou num jogo de constante ironia. Consumiste toda a feliz ignorância das crianças, o fulgor entusiasta dos adolescentes e a fortuna dos casais. Sem qualquer pejo, arruinaste o brilhantismo do ser.
Quando terminaste, e embora o esforço, nem tu foste capaz de sorrir. Entendeste que nada havia mais para levar, acabar, tirar, destruir, estragar ou consumir. Empalideceste, cerraste-te sob o teu abdómen e choraste o pranto do mundo. Aí, experimentaste a apatia que tão bem soubeste oferecer a todos. Sofreste a mesma morte que tão bem soubeste dedicar a todos os outros. Perdeu-se toda a vida, resta agora a vacuidade. Sobrou o nada. Maldito sejas.

"Mas a operação de escrever implica a de ler como seu correlativo dialético, e estes dois actos conexos precisam de dois agentes distintos. É o esforço conjugado do autor e do leitor que fará surgir o objecto concreto e imaginário que é a obra do espírito."

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  • Blogger Felipe Costa escreveu:
    11:15  

    Tenho um projecto para ti...

    Escreve um livro... sobre o nada... sobre tudo...
    Sobre os hábitos breves...

    Eu compro ;)

    PS: Excepcional blog... design... conteúdo... conjunto... =)
    Parabéns Pedro
    PS2: Temos que falar... topo

Hábitos Breves

"Gosto dos hábitos que não duram; são de um valor inapreciável se quisermos aprender a conhecer muitas coisas, muitos estados, sondar toda a suavidade, aprofundar a amargura. Tenho uma natureza que é feita de breves hábitos, mesmo nas necessidades de saúde física, e, de uma maneira geral, tão longe quanto posso ver nela, de alto a baixo dos seus apetites. Imagino sempre comigo que esta ou aquela coisa se vai satisfazer duradouramente - porque o próprio hábito breve acredita na eternidade, nesta fé da paixão; imagino que sou invejável por ter descoberto tal objecto: devoro-o de manhã à noite, e ele espalha em mim uma satisfação, cujas delícias me penetram até à medula dos ossos, não posso desejar mais nada sem comparar, desprezar ou odiar. E depois um belo dia, aí está: o hábito acabou o seu tempo; o objecto querido deixa-me então, não sob o efeito do meu fastio, mas em paz, saciado de mim e eu dele, como se ambos nos devêssemos gratidão e estendemo-nos a mão para nos despedirmos. E já um novo me aguarda, mas aguarda no limiar da minha porta com a minha fé - a indestrutível louca... e sábia! - em que este novo objecto será o bom, o verdadeiro, o último... Assim acontece com tudo, alimentos, pensamentos, pessoas, cidades, poemas, músicas, doutrinas, ordens do dia, maneiras de viver." Friedrich Nietzsche, in 'A Gaia Ciência'