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despertar

Seis e quarenta e sete da manhã, é o que o despertador, mudo, exibe no seu verde mostrador. As pálpebras, ensonadas, abrem-se lentamente mas tudo o resto permanece fechado sem motivo aparente. O que é que se passa? A razão tenta soerguer o corpo morto mas sem qualquer consequência, os cinco sentidos parecem adormecidos, choram por algo diferente a que se possam associar, do que aquilo que experimentam neste preciso momento. A culpa tanto pode ser do ar carregado que preenche o quarto hoje, das duas garrafas de Freixenet consumidas de rajada no estranho fim de tarde de ontem, do tempo pouco convidativo que a janela negligentemente deixada aberta durante toda a madrugada apresenta ou dos tentadores cobertores que tudo escondem. A culpa pode ser minha ou até de ninguém. As mãos tentam agarrar algo tangível nos nervos que se começam a aglomerar por todo o corpo. Aqui vamos nós outra vez. Os nós presentes em todo o corpo renascem para o novo dia, as feridas que a noite poderia curar, não curou.

Tenho de me levantar, encarar tudo de outra maneira, apesar de tudo ser exactamente igual ao que sempre foi. E se não quiser mudar? Não quero. Tenho de mudar, digo de novo. Como se isso fosse fácil.

"Mas a operação de escrever implica a de ler como seu correlativo dialético, e estes dois actos conexos precisam de dois agentes distintos. É o esforço conjugado do autor e do leitor que fará surgir o objecto concreto e imaginário que é a obra do espírito."

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  • Blogger Clave de Sol escreveu:
    22:32  

    Às vezes acho-me tão parecida contigo (e vice-versa, digamos).

    Parabéns pelo blog. Está bonito em todos os sentidos. topo

Hábitos Breves

"Gosto dos hábitos que não duram; são de um valor inapreciável se quisermos aprender a conhecer muitas coisas, muitos estados, sondar toda a suavidade, aprofundar a amargura. Tenho uma natureza que é feita de breves hábitos, mesmo nas necessidades de saúde física, e, de uma maneira geral, tão longe quanto posso ver nela, de alto a baixo dos seus apetites. Imagino sempre comigo que esta ou aquela coisa se vai satisfazer duradouramente - porque o próprio hábito breve acredita na eternidade, nesta fé da paixão; imagino que sou invejável por ter descoberto tal objecto: devoro-o de manhã à noite, e ele espalha em mim uma satisfação, cujas delícias me penetram até à medula dos ossos, não posso desejar mais nada sem comparar, desprezar ou odiar. E depois um belo dia, aí está: o hábito acabou o seu tempo; o objecto querido deixa-me então, não sob o efeito do meu fastio, mas em paz, saciado de mim e eu dele, como se ambos nos devêssemos gratidão e estendemo-nos a mão para nos despedirmos. E já um novo me aguarda, mas aguarda no limiar da minha porta com a minha fé - a indestrutível louca... e sábia! - em que este novo objecto será o bom, o verdadeiro, o último... Assim acontece com tudo, alimentos, pensamentos, pessoas, cidades, poemas, músicas, doutrinas, ordens do dia, maneiras de viver." Friedrich Nietzsche, in 'A Gaia Ciência'